
Uma crônica que não pede permissão para existir, Viva…
Prédios, umidade que arde em meu nariz, rostos vazios, barulho do metrô, mais uma vez saindo de meu psicólogo. Martin é o nome dele. Mais uma vez tive que ouvir suas proezas com as mulheres e seus hobbies. Com meu fone de ouvido sigo o caminho até a Recoleta, esta famosa necrópole que tanto me encantou.
Coleções de arquiteturas funerárias, esculturas, vidros quebrados, túmulos violados, canários saindo de mãos dadas de um mausoléu abandonado, cravos novos, outros já sugados pelo calor e amontoados com a lama, velas e o cruzeiro. Mesmo com a bagunça sonora dos carros ao longe, pude sentir o barulho sepulcral e confortante do silêncio.
Sentado à sombra de uma árvore do Cemitério da Recoleta, olho as nuvens e seus formatos. Divago sobre o motivo da existência daquele psicólogo neste mundo. Ele não deveria me ajudar? Sempre falando de suas mulheres, carros, seu alfaiate e ternos caros, e não menos importante, sua coleção de meias coloridas.
Vejo a existência sendo resumida em pequenos favores, souvenirs, consumismo e mentor’s. O que a maioria não sabe é que, para onde vão, o caminho é solitário.
— Está dizendo que não posso guardar meus bens aqui neste túmulo?
Com vermes saindo de sua boca, era Renato, detentor do túmulo 77, quadra 666.

Quando percebi, estava conversando com um morto. Era só o que me faltava!
— Vamos! Eu escutei seus pensamentos aí dentro de sua massa cefálica. Me explique sua dor, já que não tenho nada para cobiçar, não preciso ser ouvido e, com certeza, nada a perder — continuou Renato.
Sem nenhuma surpresa, tento ter uma conversa telepática — já que ele ouviu meus pensamentos — com Renato, que ainda deve estar a sete palmos de terra.
Caro colega, tenho pensado em muitas coisas, e essas coisas têm me consumido por dentro. Me sinto realmente muito triste com tudo. Em meu quarto alugado, vejo aquela pilha de mensagens e telefonemas de cobradores. A vida, a vida! Parece tão lixo e sem graça. As pessoas têm procurado relacionamentos para se preencherem e, mesmo assim, no fundo, sabem que nunca preencherá o vazio que há dentro delas.
O que tenho mais pensado nas últimas semanas é como morrer de uma forma indolor, mas não uma coisa do tipo me jogar de um prédio ou dar um tiro na cabeça. Só queria me drogar até morrer ou tomar algum medicamento seguro para isso, e dar fim em um quarto de motel.
Admito que, muitas vezes, eu fui uma pessoa intransigente. Deixei que as pessoas me usassem, deixei pessoas controlarem minhas ações. Isso é tudo muito superficial. Não sei o motivo nem o porquê de tudo isso. Uma avalanche de sentimentos e ações ausentes, onde não foi dada sua devida atenção.
Me sinto deprimido há bastante tempo e isso tem piorado muito. Meu coração está fodido. Eu não me sinto vivo.
Tudo bem, eu sei que talvez devesse procurar ajuda ou qualquer coisa do tipo, e assim o fiz. Procurei Martin. Me ajudou? Apenas me confirmou o quanto o ser humano é sugado pelas suas incertezas. Pessoas dizem que é preciso se expressar e mostrar nossos sentimentos, mas eu não quero mais. Eu sou mais do que qualquer um desses. Eu só quero desaparecer.
Fui sincero, Renato. O que tem para me dizer?
Ainda com vermes caindo de sua boca, agora percebo feridas em todo o seu corpo. A decomposição já foi iniciada. Em uma baforada, Renato solta a voz.
— Então quer dizer que apenas você tem problemas? Por favor! Me arrependo até hoje de não ter dado a devida atenção para meus filhos, perdoado quem até não merecia.
Renato continua:
— Se o mundo te consumir, consuma um pouco dele. Busque energia nessa sua caminhada. Tome um banho de cachoeira, vá com sua família em um belo acampamento à luz da lua, ajude um coitado, busque conhecimento, colecione meias, faça a diferença que você gostaria de ver e seja quem nasceu para ser — apenas você. Veja como eu estou hoje, deixado à própria sorte por minhas escolhas. Nessa tarde, sou apenas eu.
Engasgado, Renato espuma borbulhas de sinceridade e sangue pela boca, gritando, fala:
— ACREDITE NA VIDA! Pois ela acredita em você. Sim, ela acredita.
Olho para Renato e vejo a sinceridade em seu rosto deformado. Em um gesto de agradecimento, me levanto e sigo minha caminhada.
Conversei com uma alma, um morto, meu anjo guardião ou comigo mesmo? Olhei para dentro de mim e consegui. Na dor, quando não tem mais saída, é o momento de maior aprendizado. Seguirei em frente. Deixo sepultado aqui, nas linhas deste cruzeiro, o sentimento que não levo mais comigo. A doença que não tenho é apenas a realidade.
Renato cumpriu o seu propósito.
Hasta Luego.